domingo, 15 de julho de 2007

Becas e Mimi



Chegaram no dia 15 de Maio... duas gatinhas que haviam sido abandonadas e que o meu Vet Filipe - o padrinho, no dizer da minha Mãe - me trazia, após a morte da minha gata Nocas. Esta, tinha acompanhado alguma parte da minha vida, uns 12 anos de vivência comum, de compreensão e carinhesa. Para quem tem gatos, ou cães, isto é perfeitamente claro e com sentido. Acompanhou-me nos anos que antecederam o meu divórcio e a difícil decisão de abandonar tudo e começar vida de novo... claro que os nossos gatos nunca nos abandonam, seguem connosco, mais ou menos mudos, mas com a certeza de que é assim!
A Becas - arraçada de persa e com a cauda cortada e torta - era mais pequenina do que a Mimi, uma europeia comum. Tinha um focinho pequenino, narizito rosa, olhos claros, pelinhos brancos com manchas cinzentas de vários tons. Ambas vinham constipadas e com tratamentos a fazer em casa.
Foram bem recebidas até pelo meu "gato mais velho" o Nico, de três anos, que logo as adoptou apaixonando-se pela Becas... gato castrado novinho, ficou-lhe o instinto de "copular"... a Becas muito pequenina dava-se às brincadeiras dele e nunca o vi tão satisfeito! Mas a Becas era uma verdadeira "lady", muito arrumadinha, a cauda curtinha sempre à volta das patinhas quando se sentava, tinha o cuidado de ir tapar com areão as "coisas" menos bem arranjadas que a Mimi, uma verdadeira "gremlim" deixava. Olhava-nos com os seus olhinhos e abria a boca para esboçar um miado quase insonoro, sempre que podia punha as suas patinhas em cima dos nossos pés, pois tinha frio, adorava estar ao sol, na marquise e durante a sua vida curtinha dormia no meu colo antes de me deitar.
A Becas, no entanto, começou a aparentar outros problemas de saúde e depois de consultas e mudanças de antibióticos e antipiréticos entrou na Clínica do Vet Filipe, para exames mais profundos. Entrou numa 3ª feira e deveria voltar para casa na 6ª. Na 6ª o Vet Filipe telefonou, a Becas ficaria ainda no Sábado, para uma ecografia renal e no Sábado o Vet Filipe telefonou-me, a Becas não podia regressar a casa. Tinha PIF (Peritonite Infecciosa Felina) com prognóstico muito reservado. Vi tudo o que havia para ver na Internet, a respeito desta doença, e por mais que me esforçasse a elevar o meu pensamento e a minha energia para locais de esperançosa salvação, tudo o que li me dizia exactamente o contrário. Fui à Clínica e encontrei a minha Becas muito doente, em três dias estava fragilizada por não comer, pelos exames, etc.. Estava numa caminha, num local fechado com condições, mas sem o seu amado sol. Trouxe-a ao colo e sentei-me com ela. Chamei-a baixinho, repetidamente, e enquanto lhe fazia festinhas, Bequinhas, minha Bequinhas, até que ela finalmente olhou para mim e, jamais vou esquecer aquela expressão e aquele queixume. Olhou-me com os seus olhinhos que, já não era claros, mas escurecidos, e emitiu um queixume baixinho, de revolta. A seguir tentou dormir no meu colo. O seu olhar e o seu queixume queriam dizer-me "que raio de azar! por um segundo na minha vida tive a sorte de encontrar, uma casa, uma dona, carinhos, comida, e logo agora aconteceu-me isto! Eu quis que ela morresse em minha casa, como todos os meus outros gatos, mas a PIF para além de não ter cura é altamente contagiosa. Não pude trazê-la comigo e, dois dias depois, na 2ª feira, dia 09 de Julho, acabou a curta vida da minha Becas. Tão curta e tão marcante. Tão injusto, meu Deus!
Lá em baixo na rua está um cão que foi abandonado há 3 semanas e ao qual os vizinhos e eu vamos dando comida, na CML os últimos animais, cães e gatos, entraram para a galeria de adoptáveis em Junho deste ano. Que gente é esta?! Como é que é possível agirem assim, não é minha Becas?!